ANAIS DO II ENCONTRO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA COLONIAL.
Mneme – Revista de Humanidades. UFRN. Caicó (RN), v. 9. n. 24, Set/out. 2008. ISSN 1518-3394.
Disponível em www.cerescaico.ufrn.br/mneme/anais
A IDEOLOGIA IMPERIALISTA NA LITERATURA COLONIAL INGLESA
Profa. Daise Lílian Fonseca Dias
Os termos colonialismo e imperialismo são comumente usados alternadamente. De acordo com o Oxford Advanced Learner’s Encyclopedic Dictionary (1992; minha tradução livre), colonialismo é “uma política de aquisição de colônias e a manutenção delas como dependentes,” ou ainda “uma tendência de um país poderoso de usar suas colônias ou países que são economicamente dependentes dele para seu próprio
benefício econômico e político.” Essas definições não mencionam a presença de povos nativos, nem fazem referência a encontros coloniais, muitos menos ao fato de que as colônias, não eram terras virgens, mas territórios independentes, uma vez que primeiramente pertenciam aos seus habitantes originais, e não eram simplesmente terras desabitadas à disposição de qualquer “país poderoso” que delas quisesse tomar posse. Isso esvazia o termo das implicações que a ele de fato estão atreladas, tais como, opressão, repressão, lucro, comércio, exploração, preconceito, racismo, dentre outros, embora o processo de colonização não tenha ocorrido de modo idêntico nas diferentes partes do mundo, mesmo assim, ele aprisionou os habitantes originais da terra e os colonizadores em um dos mais complexos relacionamentos da história humana. A segunda definição proposta pelo dicionário já expressa o fato de que colonialismo pode ser compreendido como um processo arbitrário de conquista e controle sobre terras, povos e bens para benefício dos colonizadores.
A prática de colonialismo remonta a impérios pré-capitalista (o asteca, por exemplo), e capitalista (o inglês, por exemplo), para usar uma terminologia marxista. De acordo com Loomba (1998, p. 4; minha tradução livre), alguns defendem que “a distinção entre colonialismos pré-capitalistas e capitalistas é frequentemente feita pela referência ao último como imperialismo.” A autora acredita que esse tipo de distinção pode ser confusa, uma vez que ambos remontam a um passado pré-capitalista, inclusive alguns autores consideram o imperialismo anterior à própria prática colonial.
O Oxford Advanced Learner’s Encyclopedic Dictionary (1992; minha tradução livre) define imperialismo como “política de extensão do poder de um país e sua influência no mundo através da diplomacia ou força militar, e especialmente pela aquisição de colônias.” Apesar da semelhança com a definição de colonialismo, muitas são as possibilidades de compreensão para esse termo, as quais se complementam, como a
de Lênin e Kaustsky ainda no início do século XX, entre outros; esses autores deram “um novo significado a palavra ‘imperialismo’ ao ligá-la a um estágio particular de desenvolvimento do capitalismo” (LOOMBA, 1998, p. 5; minha tradução livre). Segundo Loomba, no livro Imperialism, the highest stage of capitalism (1947), os autores defendem que o crescimento do capitalismo financeiro e da indústria em alguns países do Ocidente criou uma superabundância de capital que precisava de novos mercados e de mão-de-obra para atender as necessidades de expansão da metrópole em vários níveis. As colônias ou países não-industrializados escolhidos como alvo não tinham capital, mas abundavam em mão-de-obra, possíveis consumidores, e matéria prima. Assim, os países industrializados subordinaram nações não-industrializadas na busca pela sustentação do seu próprio crescimento.
Esse sistema global chamado imperialismo, pode ser compreendido também como um estágio do desenvolvimento do capitalismo que distinguiria colonialismo e imperialismo. Na realidade, Loomba (1998, p. 6; minha tradução livre) adverte que a direta dominação colonial não é necessária para o imperialismo neste sentido, porque as relações econômicas (e sociais) de dependência e controle asseguram tanto trabalho cativo quanto mercados para as industrias europeias e seus produtos. Às vezes, as palavras ‘neoimperialismo’ ou ‘neo-colonialismo’ são usadas para descrever essas situações. Mesmo o crescimento da indústria européia e do capital financeiro tendo sido conseguido através da dominação colonial em primeiro lugar, nós podemos ver que o imperialismo (neste sentido) é o mais alto estágio do colonialismo.
É importante considerar que as diferenças entre esses termos ocorrem de maneiras distintas dependendo da mutação histórica de cada um. Uma possibilidade de distinção entre eles pode ser conseguida com a não separação de ambos em termos temporais, mas em termos espaciais. Tanto imperialismo quanto neo-imperialismo tem sua origem na metrópole - país imperialista de onde emana o poder controlador - e seu resultado, ou seja, o que acontece na colônia ou na neo-colônia – local dominado seja política, cultural e/ou economicamente da metrópole - isto é, a conseqüência da dominação imperial, tanto pode ser a colonização quanto a neo-colonização, pois o imperialismo pode funcionar sem colônias formais (como no imperialismo americano atual), mas o colonialismo não, assim como mostra Loomba (1998). Assim, no mundo moderno, pode-se compreender o processo de colonização como a tomada de um território, o que inclui a exploração da terra, e conseqüente apropriação de recursos e do povo enquanto mão-de-obra por parte da metrópole imperialista, bem como a interferência dela nos aspectos políticos, econômicos e culturais locais. Já o imperialismo seria um sistema global de dominação - levado a efeito pelo que se chama de potências ou superpotências econômicas e/ou militares - e interferência em países em vários níveis, os quais podendo ser colônias de fato ou não da metrópole imperialista.
Mas, qual a relação desses aspectos políticos, sociais, culturais, geográficos com a literatura? Uma das vertentes pós-modernas da crítica literária encontra-se dentro da grande área chamada de Estudos Pós-coloniais, os quais buscam analisar, dentre outros pontos, as relações de poder em várias esferas – econômica, política, literária, por exemplo - existentes entre colonizadores e colonizados, metrópole e colônia tão discutidas em textos literários ou não, de ambos os lados. Contudo, para tanto, esses estudos tém também a tarefa de compreender o seu próprio nome e as implicações dele. As flutuações dos termos acima discutidos lançam questões pertinentes sobre o próprio termo “pós-colonial.” Como aparentemente a era do colonialismo não mais existe, consequentemente os descendentes de povos colonizados vivem em toda parte, já que até os anos 1930, 84,6 % do planeta havia sido colonizado, como mostra Said (2003); assim, o mundo inteiro pode ser considerado pós-colonial. Além disso, o prefixo “pós” sugere um resultado que envolve aspectos temporais, ao indicar um período posterior, mas também aspectos ideológicos, no que se refere à suplantação. Este segundo ponto tem provocado acalorados debates, especialmente porque se as diferenças “da era colonial ainda não foram apagadas, é talvez prematuro proclamar o fim do colonialismo” (LOOMBA, 1998, p. 7; minha tradução livre), sobretudo porque, como mostra a autora, um país pode ser tanto pós-colonial (formalmente independente) quanto neo-colonial (dependente econômica e/ou culturalmente da metrópole imperialista). Isso acontece em virtude da nova ordem global, a qual não depende da dominação direta. Pode-se, portanto, pensar no pós-colonialismo não apenas como posterior ao colonialismo, mas como “uma contestação da dominação colonial e os legados do colonialismo” (LOOMBA, 1998, p. 13; minha tradução livre). Ou ainda, compreendê-lo como uma forma de contestação, por parte de grupos, pessoas ou indivíduos dissidentes e oprimidos por esses sistemas, e não apenas como uma localidade ou uma ordem social.
Os legados do colonialismo são o resultado da sua atuação tanto interna quanto externas à metrópole. Em suas relações com “o outro” colonizado, o colonialismo criou um discurso de outremização de partes do globo, povos, raças, e gênero, por exemplo – conforme visto em romances tais como Robinson Crusoe (1719), de Daniel Defoe e Mansfield Park (1814), de Jane Austen - baseado em ideologias que buscavam
legitimizar, difundir e perpetuar o que seus praticantes consideravam a superioridade da raça branca e dos europeus, como analisa Said (2003). Segundo Bonnicci (2005, p. 223), “a teoria e a crítica pós-colonialistas, constituindo uma nova estética pela qual os textos são interpretados ‘politicamente,’ baseiam-se na íntima relação entre o discurso e o poder.” Essa equação foi herdada do pensamento pós-estruturalista, e um dos seus grandes expoentes é Foucault, o qual defende que não é possível dissociar o
discurso escrito ou oral, do período histórico no qual ele foi produzido. Ele busca descobrir as regras do discurso de momento histórico específico e relacioná-las à análise do conhecimento e do poder. A importância do discurso é fundamental porque está intimamente ligada a ideologias que se utilizam do discurso escrito e/ou oral para atingir seus objetivos. Por isso, Foucault considera que o poder produz a “verdade,” assim, a verdade ou não de um discurso, reflete as ideologias que o produziram (SARGENTINI & NAVARRO, 2004).
As discussões de Foucault trouxeram a linguagem para o centro do poder social e das práticas sociais, e é nesse ponto que “se encontra o papel social da linguagem e da literatura como poder hegemônico,”(BONNICCI, 2005, p. 224), especialmente porque a literatura teve um grande papel para os colonizadores: aquele de difundir suas ideologias, enquanto elemento educacional, e parte integrante de Aparelhos Ideológicos do Estado, conforme Althusser (1985), uma vez que de acordo com Gramsci as ideologias são transmitidas através de instituições sociais. Althusser analisou a dialética entre as idéias e a existência material, e introduziu novas perspectivas à discussão sobre ideologias, sobre como elas são internalizadas, sobre como as pessoas aceitam e internalizam idéias dominantes, sobretudo porque elas expressam os interesses de grupos sociais, mas ao mesmo tempo agem através e sobre os indivíduos ou “sujeitos.” A questão da internalização das ideologias dominantes e a ab-rogação da própria cultura pode ser vista no romance de Emily Brontë, O morro dos ventos uivantes (1847), embora a autora não comungue com a postura dos seus compatriotas e a denuncie no seu único romance. Os pontos até agora discutidos – embora muito brevemente – provocaram uma revolução em diversas áreas do saber, dentre elas a crítica literária. Ela percebeu que a história não apenas oferece “background para o estudo de textos, mas forma uma parte essencial do significado textual; assim, textos ou representações têm que ser vistos como fundamentais para a criação da história e da cultura,” como observa Loomba (1998, p. 40; minha tradução livre). Assim, a análise do discurso possibilita a descoberta de conexões entre o explícito e o implícito na retratação das relação entre o dominante e o marginalizado dominado, entre idéias e instituições. Loomba lembra também que a análise do discurso permite que se perceba “como o poder trabalha através da língua, da literatura, da cultura e de instituições que regulam nossa vida diária” (p. 41). Desde o lançamento em 1975 de Orientalism (2003) de Said, estudos sobre o discurso colonial têm analisado uma gama de textos e práticas em diversos campos, tais como, mapas, museus, cinema, literatura, diários de viagens dentre outros, na tentativa de desmistificar a imagem estereotipada do “outro” representada sob o viés ideológico do olhar colonial, como visto no romance de Charlotte Brontë, Jane Eyre (1847), através da imagem da mulher da colônia, a louca do sótão, Bertha Mason.
Uma das estratégias da crítica literária pós-colonial é a releitura – a outra é a reescrita que não será discutida neste trabalho - isto é, textos clássicos da literatura são analisados da perspectiva do colonizado, do “outro,” para revelar suas implicações no processo colonial, visando descobrir “no texto não apenas os paradigmas estéticos mas também, e especialmente, sua origem na realidade social e cultural” (BONNICCI,
2005, p. 52). No caso da releitura pós-colonial da peça A tempestade (1611), de Shakespeare, pode-se desvendar diversas estratégias de colonização e resistência. A peça foi escrita em um período onde a Inglaterra se voltava para suas colônias na América - as quais viriam a formar os Estados Unidos - com mais intensidade. É provável que a fonte de inspiração do autor tenha saído de algum conto de um representante do imperialismo espanhol, por exemplo, de “Antônio de Eslava, da coleção Las noches de invierno, publicada em Madri, em 1609,” como sugere Claret (2005, p. 11), o qual lembra ainda que algumas fontes subsidiárias são conhecidas, dentre elas, a referência às “Bermudas tempestuosas” na peça indica que Shakespeare leu “as relações do então recente naufrágio de George Sommers, quando levava os primeiros colonizadores à Virgínia. Essa viagem se deu em 1609,” e em seguida, surgiram diversas narrativas sobre o assunto. Claret lembra ainda que “o nome Setebos é tirado de Settaboth, divindade dos patagônios mencionada na History of Travaile, de Éden (1577), que conta a viagem de Magalhães pelos mares do sul.” A questão da busca pela fonte de inspiração de um autor não costuma ser vista com bons olhos pela academia, mas por outro lado, nesse caso de discussões sobre uma perspectiva pós-colonial, constitui-se um fator importante, até certo ponto, uma vez que possibilita rastrear o contexto no qual obras forma produzidas, e o que influenciava a sociedade na qual elas foram produzidas, de modo a unir com Antônio Cândido (2000), o externo que se torna interno na feitura da obra. Mas, voltando a peça, percebe-se que de posse dessas informações, Shakespeare “apenas” adicionou o fato de que a ilha era habitada antes da chegada de Próspero, o que deu a sua estória o status de alegoria do encontro colonial. Isso revela que embora o discurso oficial exclua muitas vezes a presença de nativos ou os reduza à condição de seres inferiores que precisam ser civilizados e cristianizados, o conhecimento colonial era produzido também através da negociação com os nativos ou da incorporação das suas idéias, ou seja, havia sim uma certa relação de dependência, não assumida, do saber nativo – este sendo desqualificado oficialmente – para o controle da nova terra e de seus segredos, conforme observado na fala do personagem Calibã: Esta ilha é minha; herdei-a de Sicorax, minha mãe. Roubaste-me; adulavas-me, quando aqui chegaste; fazias-me carícias e me davas água com bagas, como me ensinaste o nome da luz grande e da pequena, que de dia e de noite sempre queimam. Naquele tempo, tinha-te amizade, mostrei-te as fontes frescas e as salgadas, onde era a terra fértil, onde estéril... (A tempestade, Ato I, cena 2).
Próspero considera seu conhecimento da ilha como “descoberta,” ou seja, a idéia de “descoberta” no contexto colonial significava inclusive a apropriação do conhecimento dos nativos. Aqui Calibã recupera a própria voz - no sentido de que desafia a figura do colonizador/Próspero – e a história pregressa na ilha. Nesse discurso, ele responde ao homem branco europeu, denunciando a usurpação e a não observância da lei local de herança que coincide com a européia. Para Bonnicci (2000, p. 56), ao denunciar a atitude de Própero, Calibã revela a sedução (hipocrisia e traição) da qual foi vítima: “Enquanto Próspero ensina o nome dos corpos celestes (que Calibã não pode ter como seus), o nativo, seduzido e ingênuo, deixa-o nomear os objetos da ilha; nomeando-os, o europeu conhece a terra e, logicamente a possui.” Esse ato de dar nomes, confere a Próspero a condição de conhecedor e dominador inclusive do que está fora da terra.
Na realidade, essa peça que durante muito tempo foi vista como um drama romântico, ou como uma discussão sobre a supremacia do conhecimento do homem branco sobre a natureza, sobre as forças do mal e sobre os selvagens, ou ainda como um texto anti-colonial que mostra os esforços do escravizado Calibã, está profundamente relacionada ao desenvolvimento e a formação do discurso colonial de modo geral. Um símbolo disto é o fato de que o nome Calibã, Caliban em inglês, é um anagrama de “canibal,” o qual tem sua origem, segundo Loomba (1998, p. 747; minha tradução livre), na palavra latina “canis” (cão). Isso reforça a idéia propagada – muitas vezes falsamente – de que nativos de terras recém descobertas pelos colonizadores eram canibais, caçadores como cães, e que tratavam suas vítimas ferozmente, como predadores. A tempestade traz à tona idéias da época em que foi escrita, relacionadas à suposta bestialidade ou a falta de civilidade dos não–europeus, mas ao mesmo tempo confunde o leitor sobre a posição de Shakespeare em relação à maneira como ele apresenta tais questões, isto é, se reforça as atitudes dominantes em relação à raça e à cultura dos colonizados, ou se critica tais fatos. O que se percebe é que o autor tinha uma profunda compreensão da condição de subalterno imposta ao colonizado, conforme visto no discurso do personagem que dura apenas umas poucas linhas na cena 2, do ato 1. A construção de uma imagem estereotipada para os povos colonizados é uma ferramenta importante na construção da ordem tanto interna quanto externa à metrópole, porque, dentre outros pontos, distorce a condição primeira do subjugado - o que refletiria a atuação impiedosa do colonizador - e impede que seus pares colonizadores sintam-se sensibilizados pelo jugo imposto ao colonizado. O estereótipo colonial, segundo Loomba (1998, p. 79; minha tradução livre), comumente representa o colonizado “como um (geralmente de pele escura, como Heathcliff, em O morro dos ventos uivantes, e Otelo) estuprador que vem desflorar a mulher branca que, por sua vez, passa a simbolizar a cultura européia.” Uma das primeiras figuras na literatura colonial inglesa a representar isso é Calibã, o qual Próspero acusa de tentar estuprar sua filha Miranda; a concretização desse ato era temida inclusive porque poderia resultar em hibridismo, ou seja, na temida contaminação do “puro sangue” inglês. Esse processo é interessante, porque, como mostra Loomba, ele opera de forma reversa o tropo do colonialismo-como-estupro, e desse modo, muda o foco da violência do
colonizador para o colonizado. Assim, a figura do negro estuprador é compreendida como uma “reação ao estupro imperial, ou uma patologia das raças escuras, ou até como um esforço europeu para racionalizar a culpa colonial,” como analisa a autora (p.79), e por isso, se torna uma característica comum e até necessária, além de permanente, da paisagem colonial tão representada na literatura colonial inglesa. A figura de Calibã tornou-se símbolo de luta contra o imperialismo inglês na Índia, onde a literatura inglesa foi a princípio utilizada como Aparelho Ideológico do Estado inglês para convencimento das massas indianas da sua suposta inferioridade. Loomba (1998, p. 90; minha tradução livre) afirma que a literatura inglesa, especialmente Shakespeare, tem servido para conscientizar tanto indianos quanto africanos na luta pela igualdade. Essa dinâmica é simbolizada pelas palavras de Calibã: “A falar me ensinaste, em verdade. Minha vantagem nisso é ter ficado sabendo como amaldiçoar. Que a peste vermelha vos carregue, por me terdes ensinado a falar vossa linguagem” (A tempestade, Ato I, cena 2). Calibã de certo modo ensaia um rompimento – embora no aspecto verbal - com a condição de subalterno e ridiculariza a aprendizagem da língua européia que comumente é encarada como elemento civilizador, e uma “vantagem” para o colonizado. Bonnicci (2000, p. 57) observa que “há muito discute-se o poder do ensino da língua e da literatura européias na construção do império britânico como forma de cerceamento e de inscrição imperial no nativo,” assim como é visto em Robinson Crusoe e denunciado por Emily Brontë em O morro dos ventos uivantes. A tempestade leva o leitor a inferir que os ingleses consideram o nativo selvagem, e o fato de ensinar-lhe a língua inglesa é como se estivesse oferecendo o elo entre o pensamento e a palavra, para de certo modo forçá-lo a ab-rogar a própria cultura e língua como o fez Heathcliff. Todavia, Calibã usa a língua do opressor para amaldiçoá-lo, subvertendo a intenção do seu opressor. Esse tipo de análise de textos literários com um viés político, conforme proposto pelas teorias críticas pós-coloniais e feministas, tem encontrado resistência dentro da própria área de Humanidades, no que se refere à estudos literários. Os estudos literários humanistas têm resistido “à idéia de que a literatura (ou pelo menos a boa literatura) tenha algo a ver com política,” como mostra Loomba (1998, p. 69; minha tradução livre). Isso tem acontecido porque acredita-se que a literatura é subjetividade, é individualidade, é pessoal, é universal, mas acima de tudo transcendental, por isso, a autora observa que as relações entre colonialismo e literatura não eram, até
recentemente, objetos de crítica literária. Essa postura tem mudado, e críticos do discurso colonial têm abordado questões tais como colonialismo, raça, gênero, dentre outros, e tem provocado reconsiderações sobre esses termos. Essa atitude era de se esperar, sobretudo se for considerado o papel chave da literatura para os discursos colonial (como visto brevemente acima) e anti-colonial (a exemplo da literatura anticolonial, tal como, Wide sargasso sea (1966) da jamaicana de origem inglesa Jean Rhys, em sua reescrita de Jane Eyre; e ainda Marise Condé, da ilha caribenha de Guadalupe, com seu Corações Migrantes (1995), que reescreveu O morro dos ventos uivantes, ambas sob o ponto de vista do colonizado; ou textos produzidos por autores da antigas colônias, tais como The palm-wine drinkard (1952) de Amos Tutuola e Things fall apart (1958), de Chinua Achebe. Esse viés político de análise, pode-se dizer que teve início com a crítica feminista, em virtude disto, criou-se uma importante relação entre os estudos pós-coloniais e os estudos feministas, sobretudo porque, como mostra Bonnicci (2005, p. 231) “há uma analogia entre patriarcalismo/feminismo e metrópole/colônia ou colonizador/colonizado,” uma vez que a mulher da colônia é colonizada tanto pelo patriarcado quanto pela metrópole. Além disso, uma mulher da colônia representa uma metáfora da mulher como colônia. No universo da presença das ideologias imperialistas na literatura inglesa, observase um caso clássico de associação da figura da mulher à figura da colônia, e/ou vice e versa. Um texto poético que aparentemente pode ser visto como voltado para o interior, ou que lida com questões de natureza privada, em detrimento da pública, tal como o poema de 48 linhas “To my mistres going to bed,” de John Donne, se lido através das lentes das intersecções entre as teorias críticas feministas e pós-coloniais, revela a metáfora da mulher como colônia, e da figura do patriarcado como a do colonialismo, e do homem como colonizador. O poema, cujo título sugestivo “Para minha amante indo para a cama” (minha tradução livre), tem início com um atraente chamado do amante para a cama, “Come, madam, come, all rest my power defy;” nove linhas depois ele diz “tell me from you that now it is bed-time.” A imagem do casal indo para a cama e as sedutoras palavras do eu lírico que se expressa numa linguagem lânguida e sedutora, cria um ambiente sensual entre os dois amantes, cujas imagens ganham formas diante do leitor: “Your gown going off such beauteous state reveals” na linha 13, e fortalece a imagem da cama com “In this love’s hallow’s temple, this soft bed” na linha 18. É apenas na segunda estrofe que o leitor percebe a analogia entre a figura da mulher e a da colônia, e o amante claramente passa a demarcar seu espaço privado pela expansão do mundo exterior. Donne trabalha o relacionamento dos amantes como uma comparação entre a interação entre colonizador e terra colonizada, ou seja, com a terra que ele “descobre,” como visto nesse trecho do poema:
License my roaving hands, and let them go,
Before, behind, between, above, below.
O my America! My new-found-land,
My kingdom, safeliest whem with one man man’d,
My myne of precious stones: My Emperie,
How blest am I in this discovering thee.
Na primeira linha desse trecho do poema, que na realidade corresponde às linhas de 25 a 30, o eu lírico “pede” licença para suas mãos circularem “antes, por trás, entre, por cima, e por baixo (linha 2), revelando que a sedução do corpo da mulher que representa a terra por ele recém–descoberta, deve ser dominado através de um elemento de conquista sutil e que promova a passividade, e a associação de ambos. Na linha três “Ò, minha América! Minha nova-terra-encontrada,” é aqui que o leitor, de fato, descobre a relação da figura da mulher com a da colônia, e percebe a idéia de posse em relação ao continente, como se vê na linha quatro que ele inicia dizendo “Meu reino;” na quinta “Minha mina de pedras preciosas, Meu Império,” e finaliza na sexta “Quão abençoado eu sou em te descobrir” (minha tradução livre). As palavras que revelam o sentido de posse estão entrelaçadas com a visão imperialista do eu lírico, o qual revela seus interesses econômico, imperial, e a estratégia de apagamento da história pregressa da América, bem como da existência de seus legítimos donos e habitantes, sugerindo que o local estava vazio quando da sua chegada. Observa-se que Donne ecoa outras vozes do império que percebem os relacionamentos sexuais e coloniais como análogos. Loomba (1998, p. 73; minha tradução livre) ao comentar o poema, diz que o amante “é o descobridor ativo do corpo feminino, e deseja explorá-lo da mesma forma que os ‘aventureiros’ europeus que penetram e se apossam de terras que são vistas como passivas, ou esperando serem descobertas.” A autora observa ainda que o corpo da mulher funciona como uma promessa de natureza sexual e indica a riqueza prometida pelas colônias. O amante/colonizador seduz a mulher/colônia, controla o seu corpo/espaço da nova terra pelo poder do toque/sedução ou apelo sexual/qualquer elemento que promova a passividade do colonizado. Para a autora, essa analogia de que a mulher representa a terra mostra a lógica reversa de que as terras ricas/as colônias, “significam tanto as alegrias do corpo feminino quanto seu status enquanto objeto que legitimiza a possessão masculina” (p. 73).
Na realidade, o que Donne faz é unir as imagens da exploração sexual, da qual a mulher é vítima, com o colonialismo global do século XVII. Além disso, esse poema mostra como a psicologia literária masculina cria paralelos entre a sexualidade feminina e a conquista de outros mundos. As mãos ativas do amante podem ser compreendidas como a passagem do colonizador pelo território recém-descoberto por ele, mas ao mesmo tempo ressaltam a imagem da virgem desflorada pelas experientes mãos do amante, revelando um aspecto da exploração e da inobservância de limites. A mulher seria um território não mapeado que o colonizador precisa desvendar, e conhecer por todos os lados. É possível inferir que para Donne, exploração e conquistas são fortes características do masculino, enquanto que a mulher, seduzida por elementos do poder de conquista masculino, não parece oferecer resistência, mas submete-se docilmente aquele encontro, simbolizando o que o colonizador esperava dos povos das novas terras. Como pode ser visto, o encontro colonial não se reflete apenas na linguagem ou na imagem de textos literários, “não é apenas uma circunstância ou ‘contexto’ contra os quais os dramas humanos são encenados, mas um aspecto central do que esses textos têm a dizer sobre identidade, relacionamentos e cultura,” segundo Loomba (1998, p. 72; minha tradução livre). O papel da literatura colonial ou não tem promovido uma postura binária entre o que é europeu e o ‘outro’ não-europeu; Said (2003) sugere isso principalmente porque essa questão faz parte da política de autoridade colonial, a qual é responsável por promover a ordem interna e a externa à metrópole. A fabricação da imagem de si mesmos como superiores, e a do ‘outro’ como inferior, funciona como estratégia de manutenção da autoridade, uma vez que mexe com o consciente coletivo inclusive, tanto de colonizador quanto de colonizado, numa busca constante pela superação dos próprios medos, refletido na necessidade de impor-se e controlar o desconhecido, através da distorção da imagem do ‘outro,’ do diferente, como se vê em O morro dos ventos uivantes. O morro dos ventos foi escrito em um período de expansão e consolidação dos ideais imperialistas ingleses. Essa obra já foi analisada por diversos críticos sob diferentes pontos de vista: marxista, psicanalítico, cultural, feminista. Ela revela uma profunda sutileza ao retratar pontos, tais como, o medo da sociedade imperialista inglesa de ser conquistada, dominada e misturada com forças consideradas inferiores, em seu próprio território, uma vez que o enredo (que envolve questões tais como a ameaça de hibridismo, o medo da revolta do colonizado contra seus algozes) se passa dentro da própria Inglaterra e não numa colônia distante. Brontë promove a união da figura do outro oprimido, isto é, a mulher, com essas forças alienígenas representadas por Heathcliff, e subverte a ideologia imperialista inglesa utilizada para lidar com essas questões. Através do amor não concretizado entre o cigano de pele escura Heathcliff e a inglesa Cathy, Brontë contesta o posicionamento dos seus compatriotas ao promover a união dos excluídos, dos “outros,” isto é, a mulher e o homem de uma raça considerada inferior pelos ingleses do seu tempo. O romance pode ser considerado como uma obra que subverte a noção de literatura como elemento de difusão de ideologias imperialistas, pois a autora simpatiza com a condição do colonizado e outremizado homem estrangeiro, e a associa à própria condição feminina em relação ao patriarcado. A figura de Heathcliff não serviria como um alerta contra os perigos da
presença do estrangeiro subalterno na sociedade inglesa como se poderia pensar, na realidade, Brontë reconhece o papel de alteridade do cigano estrangeiro marginalizado e lhe confere um espaço e uma voz, ao denunciar sua condição de oprimido. Na realidade, ciganos têm tido um papel chave no imaginário europeu; têm sido freqüentemente demonizados, exotizados - o que acontece com Heathcliff. Na realidade, o papel, o lugar, a identidade do cigano, representam medo para o homem branco europeu, em especial do século XIX; o misticismo à sua volta aliado à sensualidade que lhe é atribuída, bem como a suposta inferioridade de sua raça são vistos como uma ameaça à ordem social e familiar, como ilustra Brontë. Todo o romance é recheado de expressões que demonstram a ideologia imperialista e o preconceito do inglês com outra forma de cultura que não a sua. O trecho a seguir exemplifica a questão da desqualificação do idioma nativo de Heathcliff; a criada afirma que ele repetia uma “algaravia que ninguém conseguia entender [logo que foi trazido]. Fiquei atemorizada e a Sra. Earnshaw estava prestes a pô-lo porta a fora. Ela exaltou-se, perguntando que idéia fora aquela do marido de trazer para casa aquele cigano” (O morro dos ventos uivantes, 1971, p. 40); um exemplo clássico de desqualificação do idioma nativo do “outro.” Todo o passado de Heathcliff foi gradativamente apagado de sua memória, e sua diferença de cor e de classe social passaram a ser lembradas constantemente. Ele termina por adotar um discurso não politizado, mas, a princípio, de submissão. Contudo suas ações se revestem de cunho político, pois opressão, poder, ódio e vingança andam juntos nessa obra. Esse cigano Heathcliff é o “outro” que “invade” o território e o “conquista” quando ganha a afeição do patriarca e de Cathy, apropriando-se assim, de um terreno perigoso. Entretanto, o estigma de inferioridade cultural e racismo contribuem para degeneração dele devido à posição de liminalidade que passa a ocupar nessa sociedade, pois é a figura do inglês branco e “civilizado” que cria sua condição de alteridade - uma das formas de controle imperialista. Hindley – único irmã de Cathy, representa o pensamento do homem inglês e conseqüentemente da ideologia imperialista, pois sua primeira medida após a morte do pai é privar Heathcliff de todo e qualquer acesso à educação. Ele “tirou-o da companhia de todos para metê-lo entre os criados, privou-o das lições do pastor, substituindo-as por trabalhos fora, exigindo dele o mesmo trabalho dum empregado da granja” (O morro dos ventos uivantes, 1971, p. 50). Sua forma de não perder o controle dos bens para um cigano, é dominálo, oprimi-lo, negar-lhe acesso à educação e colocá-lo numa posição de inferioridade. A opressão, o silêncio e a repressão impostos por Hindley a Heathcliff são o resultado de ideologia da Metrópole que define o que é “sujeito” e o que é “objeto” como forças opostas. Heathcliff é o “outro” que vive em uma sociedade branca, entretanto perde sua identidade cultural. Sua solidão é uma marca no romance – ele é isolado do seu povo, da sua história e da sua cultura. Ashcroft (1991) afirma que aparentemente há um consenso entre os teóricos do pós-colonialismo no sentido de que “o senso válido e ativo do ser poderia ter sido aniquilado pelo deslocamento, pela migração...pela translocação ou pela remoção ‘voluntária’ de pessoas” (apud BONNICI, 2000, p. 211). Isso é o que acontece com Heathcliff, como conseqüência de seu encontro com o centro imperial que lhe impôs o silenciamento e a marginalização; ele ab-roga gradativamente seu idioma e sua cultura, adota o idioma do opressor e imita a cultura estrangeira que lhe é imposta como superior. Entretanto, Said (1995) chama a atenção para o fato de que o deslocamento de pessoas pode ser visto como ironia, pois ela pode se tornar um ponto positivo de contestação do sistema imperial, e é esse processo que acontece com Heathcliff. Essa obra se reveste de um caráter cada vez mais atual à medida que os séculos passam, sobretudo porque é um retrato preciso da vida, pelos elementos históricos que retratam o papel da mulher na sociedade e na família, ou pelos personagens deslocados por raça ou sexo, em um universo patriarcal e imperialista, visto que uma das grandes características dos séculos XIX e XX, que permanece no XXI, é o grande número de pessoas deslocadas e exiladas, como conseqüência de conflitos pós-coloniais e imperialistas.
A literatura inglesa foi produzida num ambiente de constantes mutações einterações desde a antiguidade, e refletem encontros interraciais. O que se percebe é que ela teve um papel central na história colonial, e nela estão eternizadas nuances daqueles períodos coloniais e seus desdobramentos, o que inclui a desvalorização dos sujeitos coloniais ou não, mas também encontra-se autores que desafiam as regras do colonialismo/imperialismo do seu próprio país. Nota-se também como textos literários têm sua importância como material para análise e compreensão da própria história, sobretudo porque, no caso da literatura colonial, e sobretudo da produzida no século XIX pelos ingleses, Spivak (1990) destaca que não seria possível ler um texto literário inglês daquele século sem lembrar que o imperialismo, compreendido como a grande mission civilatrice, era parte central para a construção da representação da Inglaterra para os próprios ingleses. Obviamente não apenas do século mencionado, mas da história daquele país enquanto Império colonial ao longo de séculos. A literatura produzida em períodos coloniais ou não, mas principalmente nessas tem refletido seu importante papel na tentativa de impor valores, crenças, ou seja, a cultura inglesa e européia ao nativos como sendo superior e como medida padrão a ser seguida. Posteriormente tornou-se um elemento, tanto no interior das colônias quanto na própria metrópole, de manutenção do controle, pela imposição de ideologias de superioridade e inferioridade para mascarar a verdadeira intenção do império inglês que era a exploração econômica e material das colônias, e uma forma de controle das massas domésticas ou não à metrópole, no sentido de ensinar aos ingleses a serem e agirem como ingleses, e aos nativos a serem nativos e agirem como tal.
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